pamela djukék.Era um show de protesto na Assembléia paulista. Aí veio um protesto contra o show. E o transformista Nick Perón virou estrela
Gisela AnauateSHOWHenrique Rocha vestido de Nick Perón e no show na Assembléia Legislativa de São Paulo (abaixo). “Quero acabar com o preconceito em todos os lugares. A drag queen quer mostrar a arte, e não o ridículo” Henrique Rocha, cabeleireiro e maquiador de um salão de beleza no Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo, assumiu sua homossexualidade para a família aos 17 anos, quando também começou a fazer shows vestido de drag queen. Há um mês, com 20 anos recém-completados, estava a caminho de uma balada gay quando recebeu um folheto na rua que o interessou. O folheto convidava a comunidade a participar de uma sessão da Assembléia Legislativa de São Paulo, que anunciaria a criação de uma Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Comunidade GLBTT (sigla para Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros). Henrique se encaixa na condição de transgênero: apesar de se vestir de mulher ocasionalmente, usa roupas masculinas no dia-a-dia e não toma hormônios femininos. É um transformista, e não um travesti. Henrique nunca havia participado de manifestações pelos direitos dos homossexuais e nem conhecia ativistas do movimento gay. Mas teve uma idéia: expor Nick Perón – sua personagem feminina, que geralmente surge à noite, nos palcos de casas noturnas – no plenário. Telefonou para o deputado Carlos Giannazi (P-SOL), coordenador da frente parlamentar, e pediu para fazer uma apresentação no evento. O deputado aceitou. Com as sobrancelhas arqueadas por lápis preto, cílios alongados com rímel e pálpebras pintadas de sombra brilhante, Henrique pegou um ônibus e foi à Assembléia. Levou a tiracolo o melhor amigo, Elder Enzo, também cabeleireiro do salão G&G Express, para ajudá-lo no restante da preparação. A performance envolveria dois figurinos e tomaria alguns minutos das apresentações da frente parlamentar, que duraram no total duas horas e meia.
“Quando entro montado no palco, perco a timidez, sinto vontade de me mostrar”, diz Henrique. Foi o que fez. À hora combinada do dia 24 de outubro, entrou no plenário vestindo uma capa preta, à moda vampiresca. Ao som de uma música que misturava batidas eletrônicas e samba, Henrique, ou melhor, Nick Perón, tirou a capa e revelou um biquíni estampado de oncinha, arrancando aplausos da platéia em torno de 60 pessoas – a maioria integrantes do movimento GLBTT. Enquanto dançava e rebolava, sacudia a peruca negra, que beirava a cintura, para todos os lados. “Com tanto bate-cabeça, nem sei como notaram calcinha e sutiã”, diz o amigo Elder. Mas alguém notou. E se incomodou. O deputado Waldir Agnello (PTB), pastor evangélico da Igreja Quadrangular, viu as imagens ao vivo pela TV Web, transmitida pelo site da Assembléia Legislativa.
“Não quero ser uma drag famosa. Só quero lutar pelos meus direitos” E encaminhou, 20 dias depois, uma questão de ordem para que o presidente da Assembléia, José Carlos Vaz de Lima (PSDB), avaliasse se houve quebra de decoro parlamentar por parte de Carlos Giannazi. Se ele decidir encaminhar o caso ao Conselho de Ética ou à Corregedoria, o deputado socialista pode sofrer três tipos de punição: levar uma advertência, uma suspensão ou até sofrer cassação. Vaz de Lima avisou que iria avaliar a gravação da sessão e daria seu parecer em breve. “Esta discussão não é sobre homofobia”, diz o presidente. “É sobre se houve excessos ou não no plenário.” Para Giannazi, sua punição significaria uma agressão à comunidade GLBTT. “Há uma guerra religiosa contra homossexuais”, diz. “O comportamento de Agnello é um retrocesso na luta contra a homofobia. Isso é um perigo. No Brasil, cem homossexuais morrem por ano, vítimas de violência.” Segundo o deputado do P-SOL, a Igreja Quadrangular, da qual Agnello faz parte, prega a cura de homossexuais.
O deputado evangélico acha que foi mal interpretado. “Não sou homofóbico, só acho que o movimento GLBTT não precisa desse tipo de exposição do corpo para mostrar suas idéias”, diz. E completa: “Hoje, é uma pessoa se apresentando seminua. Amanhã, pode ser alguém completamente nu, ou quem sabe um usuário de drogas fumando maconha no plenário”. Agnello diz que não se abalou com uma drag queen que teria se apresentado no plenário em 2006, usando um vestido longo. “Não vi, mas disseram que até foi bonito”, diz.
A discussão na Assembléia Legislativa paulista fez de Henrique o centro das atenções. O cabeleireiro, especialista em “recuperar cabelos que chegam detonados ao salão”, como diz um colega, foi assediado por jornais, programas de televisão e sites. Nos últimos dias, o telefone do salão G&G Express não parou de tocar. Henrique atendeu a ligações de clientes dando os parabéns pela atitude. Recebeu convites de casas noturnas para fazer shows. E contou e repetiu sua história: que ele é o primogênito de seis irmãos, vive em uma favela próxima ao Autódromo de Interlagos e ajuda a mãe, dona de casa, e o padrasto, mecânico, a pagar as contas. A família apóia sua homossexualidade. “Minha mãe só não aceita meu lado drag”, diz. Henrique e os parentes praticam a religião espírita. Ele já foi evangélico, como o deputado que se indignou com sua performance. Freqüentou, dos 15 aos 17 anos, a Igreja Internacional da Graça de Deus. “Resolvi sair porque sempre ouvia críticas aos homossexuais.”
O corpo mignon (60 quilos para 1,70 metro) de Henrique tem formas suaves. Suas mãos masculinas contrastam com os pés, com as unhas pintadas de vermelho – um toque que lembra o estilo de Eva Perón (1919-1952), de quem emprestou o sobrenome. “Admiro sua ousadia e sua coragem.”
Henrique diz saber que a fama recém-adquirida passa rápido. Prefere se concentrar num sonho mais prático: ter um salão de beleza em seu nome. Qual seria? Henrique, Henriqueta (como é chamado carinhosamente por clientes do salão e amigos) ou Nick Perón? Ele não diz. Enquanto desce do salto preto, atende a uma produtora de TV no celular e reclama do tratamento que recebera no dia anterior. Diz que tomou um chá-de-cadeira no estúdio da emissora. “Olha, não quero ser estrela, não quero ser uma drag famosa. Só quero lutar pelos meus direitos.”
Gisela AnauateSHOWHenrique Rocha vestido de Nick Perón e no show na Assembléia Legislativa de São Paulo (abaixo). “Quero acabar com o preconceito em todos os lugares. A drag queen quer mostrar a arte, e não o ridículo” Henrique Rocha, cabeleireiro e maquiador de um salão de beleza no Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo, assumiu sua homossexualidade para a família aos 17 anos, quando também começou a fazer shows vestido de drag queen. Há um mês, com 20 anos recém-completados, estava a caminho de uma balada gay quando recebeu um folheto na rua que o interessou. O folheto convidava a comunidade a participar de uma sessão da Assembléia Legislativa de São Paulo, que anunciaria a criação de uma Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Comunidade GLBTT (sigla para Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros). Henrique se encaixa na condição de transgênero: apesar de se vestir de mulher ocasionalmente, usa roupas masculinas no dia-a-dia e não toma hormônios femininos. É um transformista, e não um travesti. Henrique nunca havia participado de manifestações pelos direitos dos homossexuais e nem conhecia ativistas do movimento gay. Mas teve uma idéia: expor Nick Perón – sua personagem feminina, que geralmente surge à noite, nos palcos de casas noturnas – no plenário. Telefonou para o deputado Carlos Giannazi (P-SOL), coordenador da frente parlamentar, e pediu para fazer uma apresentação no evento. O deputado aceitou. Com as sobrancelhas arqueadas por lápis preto, cílios alongados com rímel e pálpebras pintadas de sombra brilhante, Henrique pegou um ônibus e foi à Assembléia. Levou a tiracolo o melhor amigo, Elder Enzo, também cabeleireiro do salão G&G Express, para ajudá-lo no restante da preparação. A performance envolveria dois figurinos e tomaria alguns minutos das apresentações da frente parlamentar, que duraram no total duas horas e meia.
“Quando entro montado no palco, perco a timidez, sinto vontade de me mostrar”, diz Henrique. Foi o que fez. À hora combinada do dia 24 de outubro, entrou no plenário vestindo uma capa preta, à moda vampiresca. Ao som de uma música que misturava batidas eletrônicas e samba, Henrique, ou melhor, Nick Perón, tirou a capa e revelou um biquíni estampado de oncinha, arrancando aplausos da platéia em torno de 60 pessoas – a maioria integrantes do movimento GLBTT. Enquanto dançava e rebolava, sacudia a peruca negra, que beirava a cintura, para todos os lados. “Com tanto bate-cabeça, nem sei como notaram calcinha e sutiã”, diz o amigo Elder. Mas alguém notou. E se incomodou. O deputado Waldir Agnello (PTB), pastor evangélico da Igreja Quadrangular, viu as imagens ao vivo pela TV Web, transmitida pelo site da Assembléia Legislativa.
“Não quero ser uma drag famosa. Só quero lutar pelos meus direitos” E encaminhou, 20 dias depois, uma questão de ordem para que o presidente da Assembléia, José Carlos Vaz de Lima (PSDB), avaliasse se houve quebra de decoro parlamentar por parte de Carlos Giannazi. Se ele decidir encaminhar o caso ao Conselho de Ética ou à Corregedoria, o deputado socialista pode sofrer três tipos de punição: levar uma advertência, uma suspensão ou até sofrer cassação. Vaz de Lima avisou que iria avaliar a gravação da sessão e daria seu parecer em breve. “Esta discussão não é sobre homofobia”, diz o presidente. “É sobre se houve excessos ou não no plenário.” Para Giannazi, sua punição significaria uma agressão à comunidade GLBTT. “Há uma guerra religiosa contra homossexuais”, diz. “O comportamento de Agnello é um retrocesso na luta contra a homofobia. Isso é um perigo. No Brasil, cem homossexuais morrem por ano, vítimas de violência.” Segundo o deputado do P-SOL, a Igreja Quadrangular, da qual Agnello faz parte, prega a cura de homossexuais.
O deputado evangélico acha que foi mal interpretado. “Não sou homofóbico, só acho que o movimento GLBTT não precisa desse tipo de exposição do corpo para mostrar suas idéias”, diz. E completa: “Hoje, é uma pessoa se apresentando seminua. Amanhã, pode ser alguém completamente nu, ou quem sabe um usuário de drogas fumando maconha no plenário”. Agnello diz que não se abalou com uma drag queen que teria se apresentado no plenário em 2006, usando um vestido longo. “Não vi, mas disseram que até foi bonito”, diz.
A discussão na Assembléia Legislativa paulista fez de Henrique o centro das atenções. O cabeleireiro, especialista em “recuperar cabelos que chegam detonados ao salão”, como diz um colega, foi assediado por jornais, programas de televisão e sites. Nos últimos dias, o telefone do salão G&G Express não parou de tocar. Henrique atendeu a ligações de clientes dando os parabéns pela atitude. Recebeu convites de casas noturnas para fazer shows. E contou e repetiu sua história: que ele é o primogênito de seis irmãos, vive em uma favela próxima ao Autódromo de Interlagos e ajuda a mãe, dona de casa, e o padrasto, mecânico, a pagar as contas. A família apóia sua homossexualidade. “Minha mãe só não aceita meu lado drag”, diz. Henrique e os parentes praticam a religião espírita. Ele já foi evangélico, como o deputado que se indignou com sua performance. Freqüentou, dos 15 aos 17 anos, a Igreja Internacional da Graça de Deus. “Resolvi sair porque sempre ouvia críticas aos homossexuais.”
O corpo mignon (60 quilos para 1,70 metro) de Henrique tem formas suaves. Suas mãos masculinas contrastam com os pés, com as unhas pintadas de vermelho – um toque que lembra o estilo de Eva Perón (1919-1952), de quem emprestou o sobrenome. “Admiro sua ousadia e sua coragem.”
Henrique diz saber que a fama recém-adquirida passa rápido. Prefere se concentrar num sonho mais prático: ter um salão de beleza em seu nome. Qual seria? Henrique, Henriqueta (como é chamado carinhosamente por clientes do salão e amigos) ou Nick Perón? Ele não diz. Enquanto desce do salto preto, atende a uma produtora de TV no celular e reclama do tratamento que recebera no dia anterior. Diz que tomou um chá-de-cadeira no estúdio da emissora. “Olha, não quero ser estrela, não quero ser uma drag famosa. Só quero lutar pelos meus direitos.”

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